quinta-feira, 1 de abril de 2010

O VALOR DO SILÊNCIO

Nunca tiveste a sensação de que teu idioma nativo é javanês ou tadjique, porque a outra pessoa não entende absolutamente qualquer palavra do que dizes? Que és um desconhecido entre os que te cercam? Um extraterreno perdido num mundo que não te reconhece? E que, por mais que te expliques, não és compreendido? É possível que sim. Curioso é que avançam e se diversificam os meios de comunicação e as pessoas se distanciam umas das outras por terem perdido a capacidade de dialogar e de tentar, ao menos tentar, entender seus semelhantes. Faltam boa vontade, acolhimento e paciência. O que acontece? Serão os egos se digladiando em voz alta? Necessidade de se situar, de se impor, de afirmar-se perante o que é? Medo de perder posições ou de ser subjugado?
Quando a gente fala e fala e fala, mas não é ouvido, é melhor praticar o silêncio. Uma prova duríssima, aliás, porque queremos ser donos da verdade de razão e ter a última palavra. Gostamos de estar certos, e é extremamente difícil reconhecer que erramos, que temos de reconsiderar os atos e aceitar que somos passíveis de equívocos e interpretações precipitadas. Oh, que vaidade imensa nos invade a cada momento!
A que nos submetemos até o crescimento espiritual que nos faz calar diante do vozerio que deturpa o que dizemos, transforma nossa manifestação em discurso que não elaboramos e nos entrega uma agressividade inesperada… E que sacrifício impomos aos que estão ao redor quando não desenvolvemos a humildade, a serenidade e a percepção de que cada um tem seus motivos para agir e ser como é.
Temos dois ouvidos, dois olhos e uma boca. Não foi em vão a dotação divina, muito bem distribuída, dos sentidos humanos. Ouvir mais do que falar revela sabedoria. Mas quanto isso nos custa por sermos ainda tão pequenos no aprendizado rumo à totalidade do ser! Como é árduo não expressar o que gostaríamos e que, talvez, devesse ser escutado.
Porém, conforme o provérbio popular, “nada como um dia depois do outro e uma noite no meio”… O decurso do tempo, as experiências, os solavancos, desencantos e desencontros são valiosos instrumentos de ensino. É melhor calar do que se arrepender do que foi dito, e se as palavras se espalham com o vento, o silêncio evita a flecha que fere de morte o sentimento alheio. É necessário exercitar a benevolência com quem ainda não sabe tudo e, principalmente, admitir as nossas imperfeições a fim de manter a calma no caos.
Silenciar exige domínio das próprias emoções, o que é dificílimo, porque não desejamos contê-las ou não conseguimos refreá-las, treinados que fomos para erguer espadas, não para oferecer flores, nos defendendo de modo exagerado e inconveniente, não raro. É uma atitude de grandeza extremamente rigorosa, quase um gesto de bravura, porque contestar, revidar, confrontar, contrapor e refutar se tornaram obrigações diante da aparência de que o silêncio demonstra fraqueza, sucumbência, covardia. Mas não é! Não é mesmo! O valor do silêncio está na força de que ele se reveste. Não precisamos responder as provocações, contestar todas as ofensas, replicar tudo o que ouvimos.
Silenciar é se ouvir e se fortalecer. E abrir a boca só quando se tem certeza, como dizia Ofélia, uma personagem cômica. Mas certeza, afinal, quem pode dizer que tem? É mais sábio silenciar do que esbravejar. Em algumas circunstâncias nada é mais constrangedor do que o silêncio. Às vezes, ele é a única resposta, e a mais lancinante.
Silenciar, porém, não é simplesmente fechar a boca e recusar-se a conversar. É entrar em contato consigo e se avaliar. É apaziguar o coração, acalmar as emoções, revisar a conduta, conectar-se profundamente com o Eu divino que habita em todos nós. É aquietar a mente e conter o impulso de proferir o que possa machucar outrem e nos causar arrependimento mais tarde. É introspecção, centramento e liberdade de voar no íntimo para buscar soluções que nem sempre as palavras oferecem. É amadurecer e ampliar o entendimento que o grito não deixa alcançar. É aguçar os outros sentidos e fazer uma boa conversa conosco para reaprendermos o diálogo com os demais.

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